ONTEM NO JB
Texto que saiu ontem no Jornal do Brasil sobre o novo livro.

Allan Sieber cria retratos ácidos em 'É tudo mais ou menos verdade'
Bolívar Torres, JB Online
RIO DE JANEIRO - Imparcialidade, isenção, e credibilidade. O manual do bom jornalismo com certeza não prega os mesmos ensinamentos do quadrinista gaúcho Allan Sieber, que prefere a via tendenciosa, parcial e levemente – ou, vá lá, pesadamente – ficcional de É tudo mais ou menos verdade, que reúne algumas de suas “reportagens” em quadrinhos realizadas para revistas como Trip, playboy e Zé Pereira, e está sendo lançado na 14º Bienal do Livro, mas sem a presença do autor para autógrafos (“Graças a Deus, não preciso ir até lá”, brinca).
Os ombudsmen de plantão podem até reclamar, mas não deixarão de sorrir amarelo com as coberturas sarcásticas das afetações do Fashion Week, das vaidades e beletrismos da última Flip, ou ainda do retrato da bizarrice social e humana presente nos favelas tours para turistas (também conhecidos como favela safári) , ou nos cursos de sedução barata. Conhecido por seu humor escrachado, Sieber cria sem remorso suas próprias regras jornalísticas para invadir as teias organizadas do nosso mundo e encontrar as mais variadas perversões.
– Com certeza, é o mais próximo que eu cheguei do jornalismo em quadrinhos, mesmo que muita gente mais gabaritada, como Joe Sacco, tenha feito melhor. Não tenho nenhum compromisso em ser fiel aos fatos. É apenas a minha percepção. E claro, está mais atrelado ao viés do humor do que dos fatos – diz Sieber, que recusa, porém, o rótulo de repórter gonzo. – O gonzo é o estilo de um homem só. Ninguém conseguiu emular o que o Hunter Thompson fez, que é se entupir de drogas e álcool e ainda assim produzir algo de qualidade.
Hitler no Leblon
Além das citadas “reportagens”, a coletânea traz outros trabalhos do quadrinista, como narrativas memorialistas, fábulas (com as suas recorrentes figuras antropomórficas) ou simples desenhos anunciando shows com seu amigo Flu, com quem volta e meia se apresenta misturando música e desenhos ao vivo. Assim como a diversidade temática, o traço de Sieber também não se prende a um padrão definido, às vezes mais livre, outras mais rigoroso. Mas, atravessando todos seus desenhos, a análise dos costumes se mantém como o fio condutor de sua obra. Observador atento, o desenhista não se furta em se apropriar das referências modernas que nos cercam e nos definem.
– Eu me interesso pelo cotidiano – diz o quadrinista, que criou o autorretrato exclusivo que ilustra a capa do Caderno B. – Tento ligar minhas tiras ao nosso tempo, mas sem que fique datado. Minha preocupação é que, daqui a 30 anos, as referências não se percam. Meu trabalho é 90% observação. Se você sentar na mesa de um restaurante e ficar atento ao que se passa ao redor, sempre vai ter material, porque as pessoas são muito estúpidas. Fecham-se em prisões particulares: o cara sai na rua de óculos escuros, boné, fone de ouvido, sem perceber o que se passa ao seu lado.
Enquanto a sátira corre solta nos quadrinhos, grupos sociais e “tribos” surgem diante dos nossos olhos. Haja playboys, patricinhas, pitboys, emos, “punks mamãe” e outros garotos de apartamento revoltados (“O cara se diz punk, usa cabelo espetado, tatuagem, piercing e, de repente, a mãe dele lhe leva Nescau na cama”, dispara o desenhista). As redes sociais – orkuts, twitters e fotologs e outras ferramentas de espetacularização do indivíduo – também não escapam do pincel ferino de Sieber.
– É doido, as pessoas perderam a noção do que é público e privado de um jeito patético e absurdo – diz o autor. – Acordam e escrevem num twitter ou num blog: “Hoje tô de ressaca. Acho que vou vomitar”. E depois completa: “Não, não vou”. Todo mundo quer ser o biógrafo instantâneo de si mesmo. O resultado são histórias desinteressantes contadas de um jeito mais desinteressante ainda.
O próprio Sieber, porém, não se furta em colocar sua intimidade nas narrativas. Difícil não encontrar um desenho sem sua figura, que às vezes se impõe como distanciada e lacônica, outras como histérica, junkie e cheia de manias. Criando um personagem de si mesmo, o desenhista expõe suas crises conjugais, seus excessos de copo e seus traumas de uma infância humilde e antissocial.
–Tem muito de exagero – diz o desenhista, mas logo muda de ideia: – Quer dizer, na verdade acho que na vida real sou mais neurótico e menos engraçado. No retrato, tendo a dourar a pílula. Sempre alguém reclama cobrando veracidade, diz que eu me desenho mais magro do que sou, ou com mais cabelo. Mas este é um personagem fixo que eu estabeleci. O desenho cria um estereótipo. É inevitável.
Nascido em Porto Alegre, Sieber está desde 1999 no Rio, onde criou a produtora Toscographics (“a menor megacorporação do mundo”), que produz animações e vinhetas. A condição de “estrangeiro” apenas aguçou seu interesse pela observação. Em Hitler no Leblon, que imagina como seria se o líder nazista estivesse vivo e morasse no bairro, o desenhista faz um resumo ácido das idiossincrasias da Zona Sul carioca. Estão lá fenômenos como o biscoito “grobo”, Manoel Carlos, o parasitismo estatal da classe artística, a alienação e o preconceito. É no aconchegante bairro que “Seu Dodô” bebe sucos no SS Lanches, aprecia rodas de samba (porque “não tem nenhum negro”) e conquista a juventude queimando mendigos.
– Nos últimos anos, percebi que Rio e Porto Alegre têm muitas semelhanças. Ambas têm um certo orgulho de si mesmas, por motivos bizarros. Como dizer que o pôr do sol do Guaíba é o mais bonito do mundo... Mentira! O Guaíba é um lago podre, nojento. No Rio, aplaudem o pôr do sol de Ipanema, essas coisas idiotas. E as duas cidades têm um lado pequeno e provinciano. A Zona Sul é uma tripinha, as pessoas não saem dali.
Para continuar estreitando as relações entre quadrinhos e jornalismo, Sieber prepara uma adaptação das reportagens de João do Rio, que deve ficar pronta até o fim do ano.
– Tenho uma sensação de intimidade com João do Rio, um personagem que transitava desde a alta burguesia até a ralé, das festas chiques ao cais e casas de ópio, com um olhar irônico e sarcástico. São relatos de costumes, como procuro nos meus quadrinhos e que mostra o que eu mostro: há 100 anos as pessoas eram estúpidas, como continuarão sendo daqui a 100 anos.
Combinação entre texto e desenho vem do século 17
Combinação entre jornalismo e quadrinhos é caso antigo. Sua origem está nas charges e caricaturas dos jornais do século 17, os precursores do movimento que alia a representação gráfica a reportagens. Mas é a partir da década de 80 que Joe Sacco cunha o termo “jornalismo em quadrinhos”, incorporando os métodos de apuração jornalística a suas obras. Pela publicação de Palestina – Uma nação ocupada, onde enquadra a realidade dos campos de batalha do Oriente Médio, ele recebeu o prêmio American Book Awards em 1996 e, desde então, as documentações do repórter e quadrinista nascido na Ilha de Malta são respeitadas como importantes retratos das áreas de conflito – ele também passou por Iraque e Bósnia.
Talvez pela crueldade das imagens, os temas de guerra são os que mais recorrem ao gênero, utilizando-se principalmete de recursos híbridos entre ficção e biografia. Ainda nos anos 80, Maus, clássica graphic novel do americano Art Spiegelman, acompanha a luta de seu pai judeu para sobreviver ao Holocausto. Mais recentemente, a iraniana Marjane Satrapi narrou sua história em meio à Revolução Islâmica em Persépolis (2000), e o americano Josh Neufeld retratou a tragédia do furacão Katrina, que arrasou Nova Orleans, no recém-lançado livro ilustrado A.D.: New Orleans after the deluge.
Para Allan Sieber, o uso dos desenhos para ilustrar as matérias em lugar de fotografias enriquece o trabalho jornalístico:
– O repórter e o “fotógrafo” acabam se juntando na mesma pessoa, que vai a campo e captura o ambiente com o traço. O desenho é uma ótima forma de se contar uma história. Pode ser mais fiel do que uma foto.
Allan Sieber
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16:34
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