NA REVISTA O GLOBO
Esse ano me chamaram para fazer um texto pro espaço "Colunista Convidado" , da Revista do Globo. Achei que nem sairia mais, mas saiu no último domingo. Ei-lo.
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JÁ CHEGOU? TÁ CHEGANDO? TÁ ONDE?
Notícias animadoras chegam do Velho Continente. Uma amiga que passa uns meses em Londres me conta, entre lágrimas de alegria, que mais tarde irá numa festa em um bar onde não se permite o uso de... celulares! Sim, meu amigo e amiga com bom senso, você pode fumar, encher a cara, comer ostras e, se preciso for, devolver tudo no banheiro, mas atender uma ligação ou ligar na nova muleta urbana é expressamente proibido. Celular lá só entra na opção vibracall (piada pronta) e se quiser usá-lo, o ansioso freguês tem que subir até o terraço e aguentar a friaca européia para receber um torpedo ou outra coisa totalmente desnecessária.
Nem vou ensaiar um “já pensou se a moda pega”, porque não, não pega, não tem jeito, nem no Rio nem no Brasil. O que pega é o celular que tem que estar sempre pegando, em qualquer lugar, em qualquer hora, seja dentro do túnel, no meio do mato, atrás da árvore e principalmente dentro do cinema. Ai do exibidor que proibir jovens e velhos fedelhos de utilizá-lo na sala escura. Na mais amena das hipóteses vai falir, na pior será corrido da cidade por uma turba munida de archotes – nada tecnológicos, por sinal – e ancinhos. Imaginem só que tortura para esse pessoal, ficar duas horas inteiras sem poder marcar a balada (?) , sem saber para quem a fulana deu noite passada ou o que o beltrano falou para levar uma cadeirada do sicrano. Seria muita falta de consideração. Ainda mais agora que se descobriu que dá para tirar fotos, ouvir música e até ler e-mails nas traquitanas. Um avanço e tanto, faz pensar como o homem pisou na Lua sem isso. Mas faz sentido, se existisse celular nessa época perigava nunca terem dado a partida no foguete. “O que, o pequeno John tá chorando? Tá com medo que eu não volte? Põe ele na linha, Mary! Fica frio, Neil, assim que eu acalmar meu filho e conferir os e-mails você dá a partida nessa josta!”
E parece que existe uma competição pra ver quem tem o toque mais irritante. “Triiim”ou “Pi-pi-pi-pi” ao que tudo indica caíram em desuso e quem os usa provavelmente é um perigoso psicopata que quer passar desapercebido. E como todo mundo sabe, nesse tipo de gente não dá pra confiar. Bom mesmo é a última música do Zezé de Camargo & Mariano, Honey & Renner, Chuchuzinho & Chuchuzão, esse tipo de coisa que fariam o velho Ludwig se orgulhar de sua surdez.
É um invento e tanto, ainda mais para os brasileiros, que segundo as pesquisas são os mais ávidos por qualquer tipo de novidade tecnológica jeca que irrite o próximo. Redes virtuais de relacionamento, bate-papo (?) online, palm tops, etc. Esse último ainda não entendi direito o que é – não o etc, o palm top - , mas quem usa parece ter bastante orgulho e não há quem os convença a guardar no bolso, tem que estar sempre em cima da mesa ou sendo alisado no colo. Inclusive guardar no bolso deve ser um problema, visto que são bem grandinhos. Talvez chegaremos num ponto onde a coisa toda fique do tamanho de uma máquina de lavar e precise de um carrinho de mão pra ser levado pra cima e pra baixo. Mas claro que não um carrinho de mão qualquer, será um elaborado por designers caríssimos de Milão cuja última façanha foi eliminar o encosto de todas as cadeiras do mundo por algum motivo estético obscuro. O que me consola é saber que nesse futuro nem tão distante estarei numa ilha na costa da África atirando em pássaros e bebendo meu gim tônica. Já tomei minhas providências quanto a isso. Via telefone fixo, que fique claro.
Tente explicar porque você não tem um celular pra ver o que é bom. Periga tomar uma sapatada no meio da cara. Mesmo os mais óbvios motivos como não ser uma parteira, bombeiro, neurocirurgião ou qualquer outro profissional que precise mesmo ser encontrado a qualquer hora, são descartados de antemão. “Mas como?? Você não tem?? Como as pessoas te acham??” Mas é justamente isso, as pessoas não me acham. É uma maravilha, todos deviam experimentar essa sensação. E digo mais, se me provarem que um dia morreu alguém porque não conseguiu achar um cartunista, eu me rendo e compro um aparelho. Mas meu toque será “Pi-pi-pi-pi”, bem baixinho. Prometo.
Allan Sieber
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16:36
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